segunda-feira, 27 de julho de 2009

Ele disse adeus...




Tínhamos um casamento perfeito. Perfeito demais, não brigávamos, tínhamos gostos parecidos e nada era novo em nossas conversas.
A rotina me parecia um abismo, Jorge chegava do trabalho pontualmente, todas as quintas era o dia que saiamos para comer uma macarronada, isso já fazia 10 anos. Isso mesmo era, ou sou casada com Jorge há 10 anos.
Não tínhamos filho, por minha opção. Pelo Jorge, teríamos uns 4 filhos. Eu não me sentia preparada para ser mãe, mais sofria ao ver a frustração do meu marido por não termos filhos.
Ele não era um homem muito carinhoso, era como ele mesmo se definia “prático”. Essa praticidade se estendia na cama, até mesmo o sexo parecia igual nesses últimos anos.
Em meus quase 30 anos, sentia que minha vida estava num marasmo, e a noite tinha pesadelos, imaginando que estaria com 60 anos, comendo macarrão na quinta.
Não pensem que não tentei conversar com Jorge, sobre essas crises que sentia. Procuramos terapia em casal, só que ele não mudava. Dizia que já estávamos casados e que era para eu parar de procurar problemas que não existiam.
Jorge não conseguia compreender que eu estava cansada de toda aquela situação. Pedi para o chefe para sair mais cedo, trabalhava como bibliotecária, e até mesmo meu pacato trabalho, estava me dando nos nervos.
Chegando em casa, decidi ligar a TV nesses fantásticos programas que passam a tarde, quando apareceu uma terapeuta sexual que disse: “ se vc está enfrentando problemas com o parceiro, nada melhor que uma lua de mel, uma viagem para uma nova reconquista”.
Era quinta-feira, esperei o Jorge chegar me arrumei e o aguardava ansiosamente. Jorge na porta me olhou e disse: Querida, vamos comer o macarrão?
Eu disse que essa quinta não teria macarrão, e que iríamos fazer uma viagem de lua-de-mel. Jorge perguntou se eu havia enlouquecido. Nesse momento me vi completamente enlouquecida e disse que estava farta do nosso casamento. Quando ele pegou em minhas mãos e disse que precisava conversar comigo.
Jorge estava sério demais, ansiava que ele tivesse compreendido o que me angustiava. Quando ele olha nos meus olhos e diz: “Querida, não podemos ficar mais juntos.”
Nesse exato momento, eu senti um aperto no peito. E o questionei se ele também estava insatisfeito com a nossa rotina.
Jorge me relata que estava com um caso há mais de 3 anos, com uma menina de 22 anos e que a talzinha estava grávida. Não quis acreditar quando ele me disse, quis esmurrá-lo, se tivesse uma faca, juro que o matava.
Com lágrimas nos olhos eu perguntei qual o motivo dele me trair tantos anos, ele disse que também estava insatisfeito com a nossa rotina, a mantinha por julgar que eu estava feliz. Eu disse que o tempo todo, tentava mostrar a ele que estava infeliz.
Quantas palavras não foram ditas, percebi naquele momento, que havia uma parede entre eu e aquele homem que um dia julguei amar. Eu apenas falava e ele silenciava e dessa forma fazíamos com aquela parede se tornasse uma barreira imensa em nossa relação. Os dois estavam errados, em 10 anos aquela parecia ser nossa primeira conversa franca.
Jorge vira e diz que eu também não ouvia, e nem sequer quis saber do sonho dele de ser pai.
Com lágrimas nos olhos o abracei e pedi que fosse embora. Jorge disse que me amava, mais nós dois sabíamos que não havia mais desejo e paixão entre nós.
Arrumei as malas dele e pedi para que ele fosse feliz, ao vê-lo saindo com as malas, me dei conta do quanto nós dois estávamos infelizes juntos, não que isso justificasse a traição do meu marido, mais deixamos a rotina ser à frente da nossa relação, com medo de nos magoarmos, deixamos as coisas correrem, e quando busquei uma mudança, essa mudança era muito tardia.
No fundo me sentia feliz por Jorge realizar seu sonho. E agora eu tinha que pensar quais sonhos eu tinha... buscar novos horizontes. Uma coisa era certa, nunca mais comeria macarrão na quinta.
Bethiara Lima

5 comentários:

felipe disse...

Interessante o texto, lembra muito o meu caso, a diferença é que saiamos todos os dias para jantar e almoçar fora e eu nunca à trai foi ela quem me traiu.

Magno Nunes disse...

Angustiante a espera...
E ele foi embora...

Achei ele um frouxo, mas isso é assunto para outra refeição...

Aceita um chá?

Thiago disse...

Bethiara sempre surpreendendo com teus belos textos, este no caso além de dispertar lembranças, revela o grande vilão de romances, o relacionamento ROTINEIRO, APÁTICO e monótono . . .
Sem novidades o tédio consome o relacionamento do casal levando a busca da novidade e talvez uma nova felicidade em outra pessoa . . .

Yve Amaral disse...

Não me canso de ler esse post...simples, profundo, doloroso e verdadeiro!

Camila Caringe disse...

É que tem coisa que não se diz, que não se pede. Um filho, por exemplo, é uma sugestão de alma, menos negociável do que um macarrão.

Aposto que aquela quinta, primeira de muitas sem rotina, foi, em verdade, um 13 de maio.